Cosme e Damião
Cantinho de

Cosme e Damião

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É tudo bolo...

A gira seguia tranquila. E era hora da chegada dos Pretos Velhos. A curimba saudava os Vovôs e Vovós de Aruanda, que incorporavam seus “cavalos” e, em pouco tempo, enchiam o terreiro de brandura enquanto pegavam cachimbos e galhinhos de arruda.


Já era a terceira vez que aquela moça ia àquele lugar. Chegava um pouco antes do início dos trabalhos, procurava um lugar mais discreto para se sentar, tomava seu passe, conversava um pouco com as Entidades e, tão logo os trabalhos eram encerrados, ia embora. Gostava da “energia” de lá, mas ainda não estava totalmente à vontade. Ali via coisas diferentes das que vira na casa que frequentava antes. Julgava algumas “melhores” e outras “piores”. Mas sabia que não deveria julgar! Tanto ali quanto na outra casa, essa lição era a mesma: não julgar. Como diziam as Entidades, julgar era apenas para seu Xangô! E ela reconhecia que tinha dificuldade nisso...


E era essa a causa de sua angústia naqueles dias. Estava se afastando da casa da qual era médium. Discordava de algumas coisas que ocorriam lá e se sentia um pouco deslocada do corpo mediúnico. Entendia que parte daquele deslocamento era pela postura que adotara – “julgadora”, retraída, pouco participativa –, mas, apesar dessa consciência, achou melhor se afastar. Pensou que talvez seria mais fácil recomeçar em outro lugar. Andou por alguns terreiros, mas em todos havia algo que não a agradava... Todos foram “condenados” em seu “julgamento”. E ela já estava cansada daquela peregrinação. Começava a pensar que o problema era a Umbanda em si. Talvez se encontrasse numa outra religião quem sabe...


Meio perdida em seus pensamentos, a moça viu que uma das Entidades – que pelo lenço na cabeça e pela toalha com flores pretas no colo, ela entendeu ser uma Preta Velha – lhe acenava. Uma mão levava um cachimbo à boca que sorria e a outra fazia um gesto calmo para ela, que demorou um pouco a se convencer de que era ela mesma quem a Preta Velha chamava e ir até lá.


– Salve, filha!


– A sua benção, vó...


– Que Oxalá a abençoe, minha criança. ‘Cê tá boa?


– Mais ou menos, vó... – E a moça não conseguiu mais falar. Apenas chorava. Suas lágrimas eram de cansaço e desilusão. Em sua cabeça rodavam dúvidas. Em seu peito sentimentos conflitavam: amor e desgostos; ressentimento e gratidão; acolhimento e distanciamento. E tudo aquilo vinha à tona em forma de lágrimas.


A Velha a abraçou e a fez repousar sua cabeça em seu colo, enquanto passava um ramo de arruda em suas costas murmurando uma cantiga que a moça não entendia.


Alguns minutos depois, já mais refeita, a moça levantou o rosto e, em meio a um sorriso triste, pediu desculpas e agradeceu à Preta Velha.


– Obrigada, vó...


A Velha a olhava pelos olhos da médium e seu semblante era sério e, ao mesmo tempo, muito terno. A moça sentiu como se aquela Entidade pudesse ver sua alma como um todo. E esse pensamento a fez desviar os olhos, com certa vergonha...

Naquele momento meio desconfortável, o tempo parecia passar mais devagar e era como se apenas elas duas estivessem ali. Não havia o som dos tambores, não havia mais ninguém à volta. E só depois do que pareceu uma eternidade, a Preta Velha quebrou o silêncio:


– Filha gosta de bolo?


A moça não respondeu à Entidade. A pergunta lhe pareceu tão fora de contexto que ela foi incapaz de falar. E sua estranheza se esboçou em seu semblante.


– Bolo, filha! De comer... ‘cê gosta? – disse a Velha sorrindo.


– Er... Gosto, vó...


– Todo bolo leva ovo, filha?


– Não sei, vó... Acho que não...


– Velha gosta de bolo de milho. E você, filha?


– Eu prefiro de chocolate, vó... – a moça respondia às perguntas, mas sem saber onde aquele papo iria levar. O que a Velha queria dizer com aquela história de bolo?!


– Bolo de chocolate é preto igual Velha, né filha?


Meio sem graça, a moça apenas sorriu e a Entidade continuou como se falasse mais para si mesma que para a pessoa à sua frente:


– Todo bolo de chocolate é redondo, filha?


– Oi?!... – a moça estava mesmo confusa com aquela conversa!


– Velha quer saber se filha já viu bolo de chocolate que não seja redondo...


– Er... Sim, vó. Tem bolo quadrado também. Na verdade, tem de vários formatos!


– E tem bolo de laranja também, não tem, filha?


– Tem...

– De banana, de coco, de mandioca, de cenoura... Até de carne, né!?


– Sim...


– E é tem quadrado, tem redondo com furo, redondo sem furo... De “vários formatos” como você disse, né filha?


– É, vó...


– E ainda tem os que levam ovo e os que não levam. Tem uns que usam farinha de trigo, outros não; uns que eles botam óleo; e outros que eles põem até bebida, né!?


E a moça continuava sem entender o que a Preta Velha queria com aquela preleção sobre bolos! Até que a Velha voltou a olhá-la bem nos olhos e com um brilho diferente no olhar, ela disse:


– É tudo diferente, mas ainda assim é bolo, filha. Cada um tem um gosto, um formato, leva um ingrediente ou outro, mas é tudo “bolo”. Quando alguém pergunta pra filha se ela gosta de bolo, igual velha perguntou, filha responde o quê?


– Que eu gosto...


– Mas deve de ter algum tipo de bolo que filha não gosta, não é mesmo?


– Hum... Tem... Eu não gosto de bolo de fubá, por exemplo.


– Mas isso não leva a filha a dizer que não gosta de bolo; que bolo não presta, né?


A moça apenas encarava com ar de dúvida a Preta Velha ali à sua frente, pitando um cachimbo e a olhando com carinho.


– Assim é a nossa Umbanda, filha. Igual bolo. Tem de várias formas, com vários ingredientes diferentes numa casa e outros noutra; tem dos mais simples aos mais sofisticados, e de tudo quanto é gosto. Mas, ao final, é tudo Umbanda, filha.


A fala da Velha foi acompanhada pela mudança no semblante da moça: agora a dúvida dava lugar a um ar de certa admiração...


– O único ingrediente que não pode faltar no bolo da Umbanda, filha, é a boa vontade. Boa vontade para se fazer a caridade e para evoluir. E esse ingrediente também são os filhos de fé que acrescentam à receita dessa e de todas as outras casas de luz, filha.


Antes de prosseguir, a velha pitou seu cachimbo com calma e observou a moça, que agora sorria em silêncio...


– Mas filha precisa lembrar que cada casa tem sua receita, que são as regras que precisam ser seguidas... É claro que se pode propor mudar a receita, mas isso não pode ser feito de qualquer jeito ou então a massa desanda!


Assentindo com a cabeça as palavras da Preta Velha, a moça continuava calada.


– Enfim, se filha não gosta de bolo de fubá e acha que não pode mudar a receita lá onde tá, é melhor mesmo procurar outra receita. Uma que agrade mais seu paladar e que filha possa saborear ao final. Quem procura, acha!


A moça beijou as mãos da Preta Velha sentindo-se mais aliviada e renovada. E a Entidade a dispensou se despedindo:


– Dá cá um abraço, filha. Que você possa ser fermento em seus trabalhos pela caridade, sempre!